Suma Teológica, Ia IIae, 9 – Sto. Tomás

Publicado março 19, 2010 por mvmonteiro
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Artigo 1. Se a vontade é movida pelo intelecto

Objeção 1. Parece que a vontade não é movida pelo intelecto. Pois Agostinho diz no Salmo 118:20: “Minha alma se consome desejando Tuas justificações: O intelecto voa na frente, o desejo segue de forma preguiçosa, ou nem o faz: nós sabemos o que é bom, mas as ações não nos comprazem”. Mas isso não seria assim, se a vontade fosse movida pelo intelecto: porque o movimento do móvel resulta do movimento do motor. Portanto, o intelecto não move a vontade.

Objeção 2. Além disso, o intelecto, ao apresentar o objeto apetecível à vontade, está, em relação à vontade, como a imaginação, ao representar a vontade apetecível ao apetite sensível. Mas a imaginação não remove o apetite sensível; na verdade, às vezes, a nossa imaginação nos afeta apenas como se fosse algo que fosse posto à nossa frente em uma imagem, e não nos move de forma alguma (De Anima, ii, 3). Portanto, o intelecto não move a vontade.

Objeção 3. Além disso, o mesmo não pode ser o motor e o móvel, com relação à mesma coisa. Mas a vontade move o intelecto; pois exercitamos o intelecto quando queremos. Portanto, o intelecto não move a vontade.

Em contrário, o Filósofo diz (De Anima, iii, 10) que o “objeto apetecível é um motor não movido, enquanto a vontade é um motor movido”.

Eu respondo que, uma coisa necessita ser movida por alguma coisa na medida em que ela está em potência a diversas coisas; porque o que está em potência precisa ser reduzido a ato por algo em ato; e fazer isso é mover. Agora, uma força da alma é considerada em potência a coisas diferentes de dois modos: em primeiro lugar, com relação ao agir e ao não agir; em segundo, com relação a esta ou a aquela ação. Desta forma, a visão às vezes vê em ato, e às vezes, não; e às vezes ela vê branco, e às vezes preto. Ela precisa, portanto, de um motor em dois sentidos, ou seja, para o exercício ou uso do ato, e para a determinação do ato. O primeiro destes é da parte do sujeito, que às vezes age, e às vezes não age; enquanto o outro é da parte do objeto, razão pela qual o ato é especificado. O próprio movimento do sujeito é devido a algum agente. E, uma vez que cada agente age para um fim, como foi mostrado acima (Questão 1, Artigo 2), o princípio deste movimento está no fim. E, portanto, a arte que está relacionada com o fim, por seu comando, move a arte que está relacionada com os meios; da mesma forma que a “arte da navegação comanda a arte da construção de navios” (Phys., ii, 2). Agora, o bem em geral, que tem a natureza de um fim, é o objeto da vontade. Em consequência, a este respeito, a vontade move as outras forças da alma a seus atos, pois fazemos uso das outras forças quando queremos; Pois o fim e a perfeição de qualquer outra força estão incluídos no objeto da vontade como algum bem em particular; e sempre a arte ou força ao qual o fim universal pertence move para as suas ações as artes ou forças aos quais os fins particulares incluídos no fim universal pertencem. Assim, o líder de um exército, que visa ao bem comum — ou seja, a ordem do exército como um todo — por seus comandos move um dos capitães, que visa à ordem de uma companhia. Por outro lado, o objeto move, ao determinar o ato, à maneira de um princípio formal, pelo qual, nas coisas naturais, as ações são especificadas, como o aquecer pelo calor. Agora, o primeiro princípio formal é o “ser” e a “verdade” universais, que são o objeto do intelecto. Portanto, por este tipo de movimento, o intelecto move a vontade, apresentando o seu objeto a ela.

Resposta à Objeção 1. A passagem citada prova, não que o intelecto não mova, mas que ele não mova por necessidade.

Resposta à Objeção 2. Da mesma forma que a imaginação de uma forma sem a estimativa de conveniência ou nocividade não move o apetite sensível; nem a apreensão do verdadeiro sem o aspecto da bondade e da propriedade do desejo o faz. Portanto, não é o intelecto especulativo que move, mas o intelecto prático (De Anima iii, 9).

Resposta à Objeção 3. A vontade move o intelecto com relação ao exercício do seu ato; uma vez que mesmo a própria verdade, que é a perfeição do intelecto, está incluída no bem universal, como um bem particular. Mas, com relação à determinação do ato, que o ato retira do objeto, o intelecto move a vontade; uma vez que o próprio bem é apreendido sob um aspecto especial, contido na verdade universal. É, portanto, evidente, que o mesmo não é motor e móvel sob o mesmo aspecto.

Artigo 2. Se a vontade é movida pelo apetite sensível.

Objeção 1. Parece que a vontade não pode ser movida pelo apetite sensível; Pois “mover e agir é mais excelente do que ser passivo”, como diz Agostinho (Gen. ad lit., xii, 16). Mas o apetite sensível é menos excelente do que a vontade, que é o apetite intelectual; da mesma forma, o sentido é menos excelente do que o intelecto. Portanto, o apetite sensível não move a vontade.

Objeção 2. Além disso, nenhuma força particular pode produzir um efeito universal. O apetite sensível, no entanto, é uma força particular, porque ele segue a apreensão particular do sentido. Portanto, ele não pode causar o movimento da vontade, movimento esse que é universal, seguindo a apreensão universal do intelecto.

Objeção 3. Além disso, como foi provado em Phys, viii, 5, o motor não é movido pelo que ele move de modo a haver movimento recíproco. Mas a vontade move o apetite sensível, na medida em que o apetite sensível obedece à razão. Portanto, o apetite sensível não move a vontade.

Em contrário, está escrito (Tiago, 1:14): “Cada homem é tentado por sua própria concupiscência, sendo atraído e enganado”. Mas o homem não seria atraído por sua concupiscência, a menos que sua vontade fosse movida pelo apetite sensível, no qual a concupiscência reside. Portanto, o apetite sensível move a vontade.

Eu respondo que, como afirmado acima (Artigo 1), o que é apreendido como bom e apropriado move a vontade como um objeto. Agora, que uma coisa pareça ser boa e apropriada se dá por duas causas, a saber: da condição, da coisa proposta, ou de a quem ela é proposta. Pois a propriedade é dita por meio de uma relação; e portanto ela depende dos dois extremos. E assim se dá que o gosto, de acordo com suas diferentes disposições, considera uma coisa de formas diversas, como sendo apropriada ou inapropriada. E portanto o Filósofo diz (Ética, iii, 5): “O fim parece ao homem conforme ele [o homem] é”. Agora, é evidente que, de acordo com uma paixão do apetite sensível, o homem é mudado para uma certa disposição. Desta forma, quando o homem é afetado por uma paixão, uma coisa parece apropriada para ele, e não parece assim quando ele não está afetado deste modo; assim, o que parece bom a um homem quando irado, não parece bom quando ele está calmo. E, desta forma, o apetite sensível move a vontade, na parte do objeto.

Resposta à Objeção 1. Nada impede o que é melhor de forma simples e em si mesmo de se tornar menos excelente de uma certa forma. Do mesmo modo, a vontade é mais excelente de forma simples do que o apetite sensível; mas, com respeito ao homem no qual uma paixão é predominante, na medida em que ele é o sujeito dessa paixão, o apetite sensível é mais excelente.

Resposta à Objeção 2. Os atos e as escolhas do homem fazem referência aos singulares. Desta forma, do fato mesmo de o apetite sensível ser uma força particular, ele possui uma grande influência na disposição do homem, de forma que alguma coisa pareça a ele desta forma ou de outra, em casos particulares.

Resposta à Objeção 3. Como diz o Filósofo (Polit, i, 2), a razão, que reside na vontade, move, por seu comando, as forças irascíveis e concupiscíveis, não, na verdade, “por uma soberania despótica”, como um escravo é movido por seu mestre, mas por uma “soberania real e política”, como homens livres são regidos por seu governador, e podem, da mesma forma, agir ao contrário dos seus comandos. Portanto, tanto o irascível quanto o concupiscível podem mover no sentido contrário à vontade; e, da mesma forma, nada impede a vontade de ser movida por eles às vezes.

Artigo 3. Se a vontade move a si mesma.

Objeção 1. Parece que a vontade não move a si mesma. Pois todo móvel, como tal, está em ato; no entanto, o que é movido, está em potência, uma vez que “o movimento é o ato do qual o que está em potência, como tal” (Aristóteles, Física, iii, 1.) Agora, o mesmo não está em potência e em ato, sob o mesmo aspecto. Portanto, nada move a si mesmo. Nem, consequentemente, pode a vontade mover a si mesma.

Objeção 2. Além disso, o móvel é movido com o motor estando presente. Mas a vontade está sempre presente a si mesma. Se, no entanto, se ela estivesse movendo a si mesma, ela estaria se movendo sempre, o que é claramente falso.

Objeção 3. Além disso, a vontade é movida pelo intelecto, como dito acima (Artigo 1). Se, portanto, a vontade move a si mesma, se seguiria que a mesma coisa está ao mesmo tempo movida imediatamente por dois móveis; o que parece irracional. Portanto, a vontade não move a si mesma.

Em contrário, a vontade é a mestra do seu próprio ato, e a ela pertence o ter vontade e o não ter vontade. Mas isso não aconteceria, se ela não tivesse o poder de se mover. Portanto, ela move a si mesma.

Eu respondo que, como estabelecido acima ( Artigo 1), pertence à vontade mover as outras forças, em razão do fim, que é o objeto da vontade. Agora, como dito acima (Questão 8, Artigo 2), o fim está nas coisas apetecíveis, e o princípio, nas coisas inteligíveis. Mas é evidente que o intelecto, pelo conhecimento do princípio, se reduz da potência ao ato, como ao seu conhecimento das conclusões; e, portanto, ele move a si mesmo. E, da mesma forma, a vontade, através da volição do seu fim, move a si mesma para querer os meios.

Resposta à Objeção 1. Não é sob o mesmo aspecto que a vontade move a si mesmo e é movida; portanto, ela não está em ato e em potência sob o mesmo aspecto. No entanto, à medida em que ela atualmente quer o fim, ela se reduz da potência ao ato, com relação aos meios, de modo a, em uma palavra, querê-los atualmente.

Resposta à Objeção 2. A força da vontade é sempre presente de forma atual a si mesma; mas o ato da vontade, pelo qual ela quer um fim, não está sempre na vontade. Mas é por este ato que ela move a si mesmo. Da mesma forma, não se segue que ela esteja sempre movendo a si mesma.

Resposta à Objeção 3. A vontade é movida pelo intelecto, quando não por si mesma. Pelo intelecto ela é movida da parte do objeto; enquanto ela é movida por si mesma, como no exercício deste ato, em relação ao fim.

Artigo 4. Se a vontade é movida por um princípio exterior.

Objeção 1. Parece que a vontade não é movida por nada exterior. Pois o movimento da vontade é voluntário. Mas é essencial ao ato voluntário que ele ocorra a partir de um princípio intrínseco, assim como é essencial ao ato natural. Portanto, o movimento da vontade não vem de nada exterior.

Objeção 2. Além disso, a vontade não pode sofrer violência, como demonstrado acima (Questão 6, Artigo 4). Mas o ato violento é o ato “cujo princípio está fora do agente” [Aristóteles, Ethic, iii, 1.] Portanto, a vontade não pode ser movida por nada exterior.

Objeção 3. Além disso, o que é movido de forma suficiente por um motor, não precisa ser movido por outro. Mas a vontade move a si mesma de forma suficiente. Portanto, ela não é movida por nada externo.

Em contrário, a vontade é movida pelo objeto, como afirmado acima (Artigo 1). Mas o objeto da vontade pode ser algo exterior, oferecido aos sentidos. Portanto, a vontade pode ser movida por nada exterior.

Eu respondo que, na medida em que a vontade é movida pelo objeto, é evidente que ela pode ser movida por algo exterior. Na medida em que ela é movida no exercício do seu ato, devemos novamente sustentar que ela seja movida por um princípio exterior. Pois tudo que é em um momento um agente em ato, e em outro momento um agente em potência, precisa ser movido por um motor. É evidente que a vontade começa a querer alguma coisa, enquanto anteriormente ela não o queria. Portanto ela deve, por necessidade, ser movida por alguma coisa para querê-la. E, na verdade, ela move a si mesma, como afirmado acima (Artigo 3), na medida em que, por querer o fim, ela se reduz ao ato de querer os meios. Agora, ela não pode fazer isso sem a ajuda do conselho; pois, quando um homem quer ser curado, ele começa a refletir como isso pode ser feito, e através da sua reflexão, ele chega à conclusão de que ele pode ser curado por um médico; e isso ele o quer. Mas, uma vez que ele nem sempre quererá atualmente ter saúde, ele deve, por necessidade, ter começado, através de algo que o moveu, querer ser curado. E se a vontade moveu a si própria para querer isso, ela deve, por necessidade, ter feito isso com a ajuda do conselho, após alguma volição prévia. Mas este processo não pode seguir até o infinito. Portanto devemos, por necessidade, supor que a vontade avançou até o seu primeiro movimento em virtude da instigação de algum motor externo, como conclui Aristóteles em um capítulo da Ética a Eudêmio (vii, 14).

Resposta à Objeção 1. É essencial ao ato voluntário que o seu princípio esteja dentro do agente; mas não é necessário que este princípio interno seja o primeiro princípio não movido por outro. Portanto, embora o ato voluntário tenha um princípio interno próximo, o seu princípio primeiro, no entanto, é de fora. Da mesma forma, assim, o primeiro princípio do movimento natural é de fora, ou seja, a inteligência, que move a natureza.

Resposta à Objeção 2. Para um ato ser violento não é o bastante que este princípio seja extrínseco, mas devemos adicionar “sem a concorrência do que sofre violência”. Isso não ocorre quando a vontade é movida por um princípio exterior; pois é a vontade que quer, embora movida por outro. Mas este movimento seria violento, se fosse contrário ao movimento da vontade; o que, no caso presente, é impossível; embora, então, a vontade iria querer e não querer a mesma coisa.

Resposta à Objeção 3. A vontade move a si mesma de forma suficientemente sob um aspecto, e na sua própria ordem, ou seja, como agente próximo; mas ela não pode mover a si sob qualquer aspecto, como demonstramos. Portanto, ele precisa ser movido por outro como motor primeiro.

Artigo 5. Se a vontade é movida por um corpo celeste

Objeção 1. Parece que a vontade humana é movida por um corpo celeste. Pois todos os movimentos variados e multiformes são reduzidos, como à sua causa, a um movimento uniforme que é dos Céus, como provado na Física, viii, 9. Mas os movimentos humanos são variados e multiformes, desde que começam a ser, enquanto anteriormente eles não o eram. Portanto, eles são reduzidos, como à sua causa, ao movimento dos céus, que é uniforme de acordo com a sua natureza.

Objeção 2. Além disso, de acordo com Agostinho (De Trin. iii, 4), “os corpos inferiores são movidos pelos superiores”. Mas os movimentos do corpo humano, que são causados pela vontade, não poderiam ser reduzidos aos movimentos dos céus, como sua causa, a menos que a vontade também fosse movida pelos céus. Portanto, os céus movem a vontade humana.

Objeção 3. Além disso, ao observar os corpos celestes, os astrólogos predizem a verdade sobre atos humanos futuros, que são causados pela vontade. Mas isso não poderia ocorrer, se os corpos celestes não pudessem mover a vontade do homem. Portanto, a vontade humana é movida por um corpo celeste.

Em contrário, Damasceno diz (De Fide Orth, ii, 7), que “os corpos celestes não são as causas dos nossos atos”. Mas eles seriam, se a vontade, que é o princípio dos atos humanos, fosse movida pelos corpos celestes. Portanto, a vontade não é movida pelos corpos celestes.

Eu respondo que é evidente que a vontade pode ser movida pelos corpos celestes da mesma forma que ela é movida por seu objeto; ou seja, enquanto corpos exteriores, que movem a vontade, ao serem oferecidos aos sentidos, e também os próprios órgãos sensitivos estão sujeitos aos movimentos dos céus. Mas alguns sustentaram que os corpos celestes têm uma influência na vontade humana, da mesma forma que um agente externo move a vontade, para o exercício do seu ato. Mas isto é impossível. Pois “a vontade”, como é afirmado em De Anima, iii, 9, “está na razão”. Agora, a razão é uma força da alma, não ligada a um órgão corporal; portanto, se segue que a vontade é uma força absolutamente incorpórea e imaterial. Mas é evidente que nenhum corpo pode agir no que é incorpóreo, mas o que ocorre é justamente o contrário; porque as coisas incorpóreas e imateriais possuem uma força mais formal e mais universal do que quaisquer coisas imateriais. Portanto, é impossível que um corpo celeste aja diretamente no intelecto ou na vontade. Por esta razão Aristóteles (De Anima, iii, 3) atribuiu aos que sustentavam que o intelecto não difere do sentido, a teoria de que “a vontade dos homens é como o dia que o pai dos homens e dos deuses produz” [Odisséia, xviii. 135 (se referindo a Júpiter, por quem eles compreendiam todos os céus).] Pois todas as forças sensíveis, uma vez que são atos de órgãos corporais, podem ser movidos acidentalmente pelos corpos celestes, ou seja, através do movimento dos corpos dos quais eles são o ato. Mas, uma vez que se afirmou (2) que o apetite intelectual é movido, de certa forma, pelo apetite sensível, os movimentos dos corpos celestes têm uma influência indireta sobre a vontade, na medida em que a vontade parece ser movida pelas paixões do apetite sensível.

Resposta à Objeção 1. Os movimentos multiformes da vontade humana são reduzidas a uma causa uniforme, que, no entanto, está acima do intelecto e da vontade. Isso pode ser dito, não de algum corpo, mas de alguma substância superior imaterial. Portanto, não há necessidade do movimento da vontade estar referido ao movimento dos céus, como sua causa.

Resposta à Objeção 2. Os movimentos do corpo humano são reduzidos, como à sua causa, ao movimento de um corpo celeste, na medida em que a disposição correta a um momento particular é , de certa forma, devida à influência dos corpos celestes; também, na medida em que o apetite sensível é agitado pela influência dos corpos celestes; mais uma vez, na medida em que corpos exteriores são movidos de acordo com o movimento dos corpos celestes, em cuja presença a vontade começa a querer ou não alguma coisa; por exemplo, quando o corpo é resfriado, começamos a querer fazer fogo. Mas este movimento da vontade é da parte do objeto oferecido desde fora, não na parte de uma instigação interna.

Resposta à Objeção 3. Como foi afirmado acima (cf. I, 84, 6, 7) o apetite sensível é o ato de um órgão corpóreo. Desta forma, não há motivo pelo qual o homem não deva ser inclinado à ira ou à concupiscência, ou alguma outra paixão parecida, em razão da influência dos corpos celestes, da mesma forma que em razão da sua compleição natural. Mas a maioria dos homens é guiada por suas paixões, a que apenas os sábios resistem. Em consequência, na maioria dos casos, as previsões relacionadas a atos humanos, derivadas da observação dos corpos celestes, são acertadas. No entanto, como diz Ptolomeu (Centiloquium, v), “o homem sábio governa as estrelas”, pensamento este que diz que, ao resistir às suas paixões, ele opõe a sua vontade, que é livre e de forma alguma sujeita ao movimento dos céus, a estes efeitos dos corpos celestes. Ou, como Agostinho diz (Gen, ad lit., ii, 15): “Devemos confessar que, quando a verdade é prevista pelos astrólogos, isso é devido a alguma inspiração muito escondida, à qual a mente humana está sujeita sem o saber. E uma vez que isso é feito para enganar o homem, deve ser trabalho dos espíritos mentirosos”.

Artigo 6. Se a vontade é movida por Deus exclusivamente, como um princípio exterior

Objeção 1. Parece que a vontade não é movida apenas por Deus como princípio exterior. Pois é natural que o inferior seja movido pelo seu superior; assim, os corpos inferiores são movidos pelos corpos celestes. Mas há alguma coisa que está acima da vontade do homem e abaixo de Deus, ou seja, o anjo. Portanto, a vontade do homem pode ser movida por um anjo também, como um princípio exterior.

Objeção 2. Além disso, o ato da vontade segue o ato do intelecto. Mas o intelecto do homem é reduzido ao ato, não apenas por Deus, mas também pelo anjo que o ilumina, como afirma Dionísio (Coel. Hier., iv). Pela mesma razão, portanto, a vontade também é movida por um anjo.

Objeção 3. Além disso, Deus não é a causa de nada que não seja coisas boas, de acordo com o Gênesis, 1:31: “Deus viu todas as coisas que havia criado, e tudo era bom”. Se, portanto, a vontade do homem fosse movida apenas por Deus, ela não poderia nunca ser movida para o mal: e, no entanto, é pela vontade que pecamos e agimos corretamente”, como afirma Agostinho (Retract, i, 9).

Em contrário, está escrito (Filipenses 2:13): “É Deus Quem trabalha em nós” [Vulg. 'vós'] “tanto para querer quanto para conseguir”.

Eu respondo que, o movimento da vontade vem de dentro, assim como o movimento da natureza. Agora, embora seja possível para alguma coisa mover uma coisa natural, sem ser a causa da coisa movida, ainda assim só o que for, de alguma forma, a causa da natureza de alguma coisa, pode causar um movimento natural nessa coisa. Pois uma pedra pode ser movida para cima por um homem, que não é a causa da natureza da pedra, mas este movimento não é natural à pedra; mas o movimento natural da pedra é causado por nada mais do que a causa da sua natureza. Por esta razão está dito em Phys, vii, 4, que o gerador move localmente coisas pesadas e leves. Da mesma forma, o homem dotado de uma vontade é, às vezes, movido por alguma coisa que não seja sua causa; mas que o seu movimento voluntário seja um princípio exterior que não a causa da sua vontade, é impossível. Agora, a causa da vontade não pode ser outra além de Deus, E isso é evidente por duas razões. Em primeiro lugar, porque a vontade é uma força da alma racional, que é causada apenas por Deus, pela criação, como está afirmado na I, 90, 2. Em segundo lugar, é evidente pelo fato de que a vontade é ordenada para o bem universal. Portanto, nada mais pode ser a causa da vontade, exceto o próprio Deus, que é o bem universal; enquanto que qualquer outro bem é bom por participação, e é algum bem em particular, e uma causa particular não concede uma inclinação universal. Portanto, nem a matéria prima, que é a potência de todas as formas, pode ser criada por algum agente particular.

Resposta à Objeção 1. Um anjo não está acima do homem de modo a ser a causa da sua vontade, como os corpos celestes são as causas das formas naturais, das quais resultam os movimentos naturais dos corpos naturais.

Resposta à Objeção 2. O intelecto do homem é movido por um anjo, da parte do objeto, que, pelo poder da luz angélica é proposto ao conhecimento do homem. E desta forma a vontade também pode ser movida por uma criatura de fora, como afirmado acima (Artigo 4).

Resposta à Objeção 3. Deus move a vontade do homem, como o Motor Universal, ao objeto universal da vontade, que é o bem. E sem este movimento universal, o homem não pode querer nada. Mas o homem determina a si mesmo em razão de querer isto ou aquilo, que é o bem aparente ou verdadeiro. No entanto, algumas vezes Deus move alguns especialmente a querer algo determinado, que é bom; por exemplo, no caso daqueles que Ele move pela graça.

Carta de Paulo VI a Étienne Gilson

Publicado janeiro 12, 2010 por mvmonteiro
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Carta do Papa Paulo VI

AO PROFESSOR ÉTIENNE GILSON

Ao venerado Professor Étienne Gilson, nosso Filho em Jesus Cristo

O passar do tempo não eclipsou, malgrado vossa modéstia, os méritos que vós adquiristes por meio da vossa longuíssima e vastíssima atividade intelectual, assim como por meio da vossa fidelidade exemplar à Igreja. Enquanto damos graças ao Senhor por estes anos muito bem preenchidos e que contribuíram de forma muito eficaz à irradiação do pensamento cristão, temos hoje em dia que vos exprimir pessoalmente uma estima que acalentamos há muito tempo por vós e um reconhecimento que vos deve a Igreja.

Vosso ensinamento nas Universidades francesas, notavelmente na Sorbonne e no Collège de France, ou ainda em Harvard, ou em Toronto, onde fundastes o “Institute of Medieval Sciences”, sem esquecer as lições que destes na nossa Universidade de Latrão; os “Archives d’histoire doctrinale et littéraire du Moyen-Age”, fundados e durante muito tempo dirigidos sob vossos cuidados; enfim, e sobretudo, as densas obras que tendes publicado, vos classificam no primeiro lugar entre aqueles que iniciaram nossos contemporâneos nas riquezas, muitas vezes esquecidas ou desdenhadas, da filosofia medieval. A Igreja, especialista na humanidade, só pode se rejubilar.

Entre os diversos representantes desta filosofia, as vossas preferências se orientam em primeiro lugar para Santo Tomás. Soubestes pôr em evidência a originalidade do tomismo ao mostrar como o Doutor Angélico – iluminado pela revelação cristã, em particular pelo dogma da criação e pelo que vós denominastes a “metafísica do Êxodo” – chegou à noção geral e verdadeiramente inovadora do “ato de ser”, ipsum esse. Desde logo, a sua filosofia se situava em um plano completamente diferente da de Aristóteles. Desta forma, revivestes uma fonte de sabedoria da qual nossa sociedade técnica tirará um grande proveito, fascinada como é pelo “ter”, mas muitas vezes cega com relação ao sentido do “ser”, e às suas raízes metafísicas.

O vosso interesse não se limitou, por outro lado, a Santo Tomás. Santo Agostinho, são Bernardo, são Boaventura, Duns Scott foram igualmente objetos dos vossos estudos. Destes trabalhos, como daqueles, mais gerais, sobre a “filosofia da Idade Média” e sobre o “espírito da filosofia medieval”, uma grande idéia se depreende que nos é particulamente cara: a fé não é, para o pensamento, para a cultura humana, um entrave ou um abafamento, mas uma luz e um estimulante. É dentro do contexto da teologia, à luz da Revelação, que o pensamento filosófico, de uma forma notável em Santo Tomás, atingiu os seus picos. Como gostaríamos que as novas gerações, fatigadas das ideologias atéias, redescobrissem esta escola de fecundidade da fé ao mesmo tempo que a confiança na razão, que é um dom do Criador!

Vossa obra, de resto tão rica e variada, e que vos valeu depois de muito tempo a honra de ter uma cadeira na Academia Francesa, de se tornar membro da Academia romana de Santo Tomás de Aquino e da Religião Católica, e de receber tantas distinções universitárias, mostra bem como a fé reconhece e favorece o mais autêntico humanismo. Vossa visão de filósofo e de historiador se voltou aos assuntos mais diversos, desde que eles tocassem a qualidade do homem e da civilização: as letras – como não evocar, aqui, vossos estudos sobre Dante? -, a arte, a linguagem, a biologia, a cultura de massa foram objetos de vossa reflexão e de vossas publicações. Como vosso amigo Maritain, soubestes fazer os cristãos de hoje, e muitos homens de boa vontade, tantas vezes angustiados e perdidos, ouvirem palavras de bom senso, de sabedoria, de fidelidade.

Acima de tudo, caro professor – é um dos pontos que mais nos preocupa na conjuntura atual – vós realizastes vossa atividade e manifestastes vossa fé cristã no seio da Igreja Católica que sempre considerastes como mãe. Recebestes dela, com confiança, tudo o que ela podia vos dispensar dos mistérios de Deus. Trabalhastes lealmente por ela, lhe prestando um dos serviços mais eminentes que requer a sua pastoral do pensamento. Trouxestes um testemunho em seu favor. Sofrestes, e sofrestes com ela, com o que a desfigurava. Não cessastes de lhe trazer confiança e afeição.

Que o Senhor faça germinar o que tendes semeado com tanta paciência! Que ele faça frutificar vosso testemunho! Que ele suscite outras testemunhas vigorosas do pensamento cristão! E que ele vos cumule, a vós mesmo, de Sua paz! De nossa parte, de todo o coração, em penhor a todos estes dons e em testemunho de nossa fiel veneração, nós vos concedemos nossa afetuosa Bênção Apostólica.

Dado no Vaticano, 8 de agosto de 1975.

PAULUS PP. VI

Sobre os números e a notação matemática – 2a. Parte. R. Guénon

Publicado março 6, 2008 por mvmonteiro
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IIOBSERVAÇÕES SOBRE A NOTAÇÃO MATEMÁTICA

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Sobre os números e a notação matemática- 1a. Parte . R. Guénon

Publicado fevereiro 22, 2008 por mvmonteiro
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Mais uma tradução de uma tradução de René Guénon. Esta é a primeira parte, a segunda está no forno.

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Física de Aristóteles, Livro 2, Capítulo 3 – As Quatro Causas

Publicado fevereiro 18, 2008 por mvmonteiro
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Física, Livro 2, Capítulo 3.
Causas Material, Formal, Eficiente e Final.
Agora que estabelecemos essas distinções, devemos começar a considerar as causas, seu caráter e número.

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Hermes – René Guénon

Publicado janeiro 28, 2008 por mvmonteiro
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Mais um texto traduzido a partir da tradução em espanhol. Este é de René Guénon, que possui umas idéias bem esquisitas mas que merece ser estudado.
Ainda encontro algum original dele para traduzir.
René Guénon – Hermes
Artigo IV, 2., de Formes Tradicionelles et cycles cosmiques, Gallimard, Paris, 1970.
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Natureza da Perspectiva Cosmológica- Titus Burckhardt

Publicado janeiro 28, 2008 por mvmonteiro
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Esta tradução é minha, feita a partir da versão em espanhol; o texto original é em francês (mas o texto em espanhol dá para baixar de graça da internet, o em francês – até onde eu vi – não…)

Natureza da perspectiva cosmológica
Artigo publicado originalmente em Études Tradicionelles, edição de julho/agosto de 1948 e posteriormente incluído em Aperçus sur la conaissance sacreé, Milão, Arché, 1987. A tradução para o espanhol que utilizamos foi feita por Augustín Lopes e foi publicada no no 1 da revista Axis Mundi (Ia época), no outono de 1994.
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